Relato

PEQUENO RELATO DA MINHA FRÁGIL MEMÓRIA

Nasci em Uruguaiana/com todos benefícios da memória./O rio Uruguay é mar de infância/pendurando no rosto/a fuselagem de meus ossos.

A poesia é que me trouxe a vida. E começo com ela este pequeno relato. Devo à minha professora do Ginásio Estadual Dom Hermeto, Domingas Faraco, o meu amor pela literatura. Li os românticos, que mantiveram a minha alma por vez primeira acesa. Depois li o simbolista Cruz e Souza, o maior poeta do século XIX no Brasil. Foi um dos primeiros autores que comprei.
Como lia e falava em espanhol, adquiri na Livraria Sarmiento, de Paso de Los Libres, Pablo Neruda e Vicente Aleixandre, que depois seriam prêmios Nobel. Eles começaram a cobrir o trajeto da minha segunda alma – o espanhol. Por isso, vários autores são temas e cantos de muitos poemas meus: Antonio Machado, Miguel Hernández, Rafael Alberti, Garcia Lorca, León Felipe, Jose Agustín Goytisolo, Juan Ruiz, Jorge Manrique, Camilo Jose Cela, Gabriela Mistral, Jose Martí, Nicolás Guillén, Cezar Vallejo, Rúben Darío, Mario Benedetti, Washington Benavides, Miguel Ángel Bustos, Chico Urondo, Mário Trejos e Juan Gelman, entre muitos outros.
No início de 1966, entrei na Faculdade de Zootecnia, em Uruguaiana, a primeira do país. Mas em agosto mudei-me para São Paulo, passando antes pela China. Em 1967, conheci o poeta Cassiano Ricardo, que leu meus dois primeiros livros manuscritos, Versos ao Longe e Poemas em Preto e Branco, que ele tachou de ”pouco apreciáveis”. Me indicou o poeta Guilherme de Almeida, apontado como príncipe dos poetas do Brasil. Não aceitei a indicação, mas li, ao conselho de Cassiano Ricardo, 25 livros, principalmente de ensaio e exegeses poéticas. Rasguei meus dois livros e comecei do zero.

Rebeldia contra a ditadura

No dia 1º de maio de 1968 estreei, em São Paulo, minha peça Povo, Palavra, Amor, Liberdade. Em pleno regime militar, a peça foi censurada e tirada de cartaz. Militante da luta contra a ditadura, participei da tomada da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista. Fui expurgado pela igreja e, logo em seguida, decretaram minha prisão. Caí na clandestinidade. Voltei ao Rio Grande do Sul e me refugiei em Alegrete, uma cidade de fronteira e pampa, como diretor do orfanato IRMA.
Em 13 de dezembro de 68 o regime militar editou o Ato Institucional nº 5, que agravou a repressão política, e novamente decretou minha prisão. Um dia depois fugi com dois amigos, Eleú Rosa de Menezes e Luís Afonso Almeida, para o interior das matas densas do rio Ibicuí. Dormi 18 dias no chão, sem nenhuma notícia do Brasil. Depois exilei-me no Uruguay.
Voltei para o Brasil e fui estudar Filosofia, numa faculdade de onde fui expurgado em 1971. Continuei a participar da luta contra a ditadura militar e, ainda naquele ano, fui preso no Teatro de Arena de Porto Alegre, onde atuava e morava. Durante a encenação da peça Arturo Ui, de Brecht, o teatro foi cercado e me tornei o único ator gaúcho preso. Meu algoz foi o diretor do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Pedro Seelig, que me torturou várias vezes.

Poeta do Brasil

Naqueles tempos difíceis, nunca abandonei minha poesia. Na década de 60 publiquei meu primeiro livro – Andança. Em 1973, Memorial abriu as portas da literatura nacional para mim. O livro foi elogiado em dois artigos no influente jornal O Globo, do Rio de Janeiro, escritos pelos poetas Félyx de Athayde – “A volta da música e do verbo à poesia brasileira” – e Antonio Olinto, que estava em Londres e o batizou de “Poeta ao Sul”. Em Porto Alegre, o escritor Guilhermino César, amigo de Carlos Drummond de Andrade, considerado por muitos como o maior poeta brasileiro, publicou uma página inteira no suplemento literário Caderno de Sábado, do jornal Correio do Povo, dizendo que Memorial reunia-se ao que de melhor se fez na literatura brasileira até então.
Em 1976 produzi a peça Poesia Gaúcha em Ação, o primeiro e único recital poético do Rio Grande do Sul. Participei com Miguel Ramos, Clênia Teixeira, Lurdes Elói e Guto Pereira.
Ainda em 1976 mudei-me para o Rio de Janeiro e fui escrever reportagens especiais e crítica literária no diário O Globo, aproveitando experiências que acumulei nas redações dos jornais A Platéia, de Santana do Livramento; Correio do Povo, Diário de Notícias, Folha da Manhã, Zero Hora e Coojornal – todos editados em Porto Alegre – e ainda nas revistas Cultura Contemporânea, Letras de Hoje, Oitenta, Continente Sul/Sur e revista da Academia Rio-Grandense de Letras, de Porto Alegre. Publiquei ainda nos suplementos literários dos jornais O Estado de Minas e O Estado de São Paulo, no Jornal do Brasil, no jornal Tribuna da Imprensa, nas revistas Escrita, de São Paulo, Poesia Sempre e José, do Rio de Janeiro, e nos jornais Movimento e Opinião. Adquiri também larga experiência como diretor de criação de agências de propaganda.

Entre os grandes, no Rio

Na primeira temporada no Rio, de 76 a 79, tive encontros importantes com grandes personagens do mundo literário e musical, como Carlos Drummond de Andrade, Tom Jobim, Raul Seixas, Ivan Lins, Alceu Valença, Ivan Junqueira, Gerardo Mello Mourão, Lêdo Ivo, Antônio Olinto, Vinícius de Moraes, Ary Quintella, Antônio Houaiss, Nelson Werneck Sodré, Paulo Gracindo, Clara Nunes, Rachel de Queirós, Maysa Matarazzo, Rubem Braga, Affonso Romano de Sant`Anna, Dias Gomes, Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, Ferreira Gullar e Martinho da Vila, entre muitos outros.
Foi no Rio, em 78, que publiquei Solidão Provisória, com prefácio escrito no exílio pelo poeta Ferreira Gullar e apresentação do escritor Nelson Werneck Sodré. O livro teve sessões de lançamento em quatro das maiores capitais de estados brasileiros – Rio, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre – e foi apontado como o mais importante lançamento daquele ano, pelo Jornal do Brasil, editado no Rio, e por Zero Hora, editado no Rio Grande do Sul.
De volta a Porto Alegre em 79, dois anos depois publiquei Estado de Alerta encerrando o Quarteto dos Anos de Chumbo – a temática lírica social. Passei para o lírico amoroso e escrevi meu primeiro livro-poema – Porto Alegre Roteiro da Paixão – na rua do Arvoredo (Fernando Machado), entre 1980 e 1982. Publicado em 85 pela Tchê Editores, é considerado o único poema escrito, em todo o mundo, em homenagem a uma cidade.
Em 1986 publiquei Amor de Amar, pela LP&M Editores. Foi destacado em página colorida pela revista IstoÉ, de circulação nacional. Participei de sessões de lançamento no Rio e em outros lugares.

Todo dia é de poesia

Durante viagem pela Europa, em 1996, escrevi três baladas – de Paris, de Lisboa e de Madrid – e decidi que tinha que escrever todos os dias. Então comecei a escrever os livros grandes: Quarteto dos Mistérios, Amor e Agonia – 384 páginas; Trilogia do Azul, do Mar, da Madrugada e da Ventania – 304 páginas (Prêmio Nacional de Poesia 2001, da Academia Brasileira de Letras, maior condecoração de nossas letras); Trilogia da Casa de Deus – 280 páginas; Cantos de Sesmaria – meu terceiro livro poema, com 280 páginas e 112 cantos, onde afirmou Gerardo Mello Mourão, único brasileiro indicado ao Nobel, em 1979, pela Universidade de Nova York:
“Bem que este livro é aquele de que fala Gide: despertam o desejo de escrever um ensaio inteiro sobre ele. Graças a Deus, e ai de mim, não sendo um crítico profissional, nem um cliente das teorias literárias, basta-me deixar aqui a alegria de poder, afinal, percorrer o pampa e ouvir pela primeira vez sua metáfora no mesmo lirismo épico de José Hernández, num tom mais alto que o próprio Martín Fierro.”
No dia 26 de dezembro de 2000, quando estava em Minas Gerais, escrevi um poema para Trilogia da Casa de Deus. Nele, cito alguns de meus livros até então editados:

Só vou onde levo minhas memórias.
Andança é o começo
daquilo que não termina.

Memorial é resistência
à lua negra do terror.

Solidão Provisória é pura perda,
mas ilumina
os calabouços da ditadura.

Estado de Alerta,
as armas ainda estão prontas.

É o Quarteto dos Anos de Chumbo
que a tudo afronta.

Porto Alegre Roteiro da Paixão,
daqui a trinta anos,
será sempre
a insônia enluarada
da cidade.
É a palavra rara e das mais puras.

Amor de Amar é o destino que me deram,
farol solitário
em alto mar.

Livro dos Meses é a doce voz do adolescente.
Depois escrevo mais dez livros,
entre as paredes de vidros
que limam as palavras.
Mistério é de Deus e do Espírito Santo
e fazem o meu canto resplandecer.

Antes,
o Livro do Passageiro,
aquele que nunca encontra paradeiro.

Uruguaiana, coração da pampa, é o brilhante
mais puro da minha lembrança.
É passado, presente e futuro,
pedra azul da minha vida.

Livro do Pampa é a primeira e longa medida
do meu país.

Amores Imperfeitos, é na via-láctea
que navego seu leito,
feito de estrelas perdidas.

Depois Quarteto dos Mistérios, Amor e Agonia,
            Incêndios clandestinos e Incêndios da Vida Inteira,
É a longa jornada na escuridão,
a afiada faca da solidão.
As Ausências pesam em minhas pálpebras
e no alpendre
de nossa velha casa.

Amada Sempre me leva pela mão,
entre o cavalo e o cão,
são estrelas tombadas no caminho.

Trilogia do Azul, do Mar, da Madrugada e da Ventania:
Madrugada Azul bate em minha porta
quando o ar fúlgido foge
para o alto-mar.

Talismã está em mim e está em ti,
como se partíssemos sempre
para o esplendor.

Ventania de toda uma vida,
morta e renascida
no viés triste da tarde.

Longidão é tudo o que me trouxe
do lugar onde nasci,
fúria dos ventos sagrados.

Templário é a Casa de Deus,
onde durmo com meu cão
e meu cavalo,
e é só com Deus
sempre
que falo.

Misericórdia faz renascer a razão
dos meus dias
e se alonga em acordes de milonga,
minha estadia na pampa,
pátria luminosa de tudo o que fiz.

Foram os dias longos da pampa
que me trouxeram para morrer
nos sargaços de alheio mar,
mas renasço
na estrela de Aldebaran,
e brindo com vinho
a lucidez da manhã.
O passado é museu que carregamos,
é de pouca valia.
O futuro é onde estamos para sempre,
é sonho lilás
que o tempo não desfaz.

Pisarão meus caídos ombros,
mas não dobrarão o que dorme
nos escaninhos da memória.

Sou tempestade do deserto,
falo alto, falo longe, falo perto.
Desabotoa-se na linguagem
a força vegetal do verbo
que está encarnado
na minha alma.

Nunca Mais Seremos os Mesmos, que veio depois, em 2005, é um longo poema de 240 cantos e 416 páginas, Prêmio Negrinho do Pastoreio ao “melhor poeta do Rio Grande do Sul”, escolhido em votação de prefeitos, vice-prefeitos e secretários municipais de Cultura.
Agora, acabei de publicar Monolítico (Memória Que Não Morre), um longo poema de 251 cantos e 293 páginas, onde penso de forma poética um pouco da minha vida. Tem o prefácio de um dos maiores intelectuais europeus, Perfecto Cuadrado, Prêmio Luso-Espanhol de Cultura e Arte/2008, Lisboa. E recebi do poeta Antonio Olinto o seguinte comentário: “Ourives da palavra, Miranda chega com Monolítico ao patamar de grande obra da Língua”.
Em recente artigo publicado no Rio Grande do Sul, o ensaísta e escritor José Edil de Lima Alves me atribui a autoria da mais extensa obra poética já publicada – 28 livros, num total de 2.705 páginas. Ele cita em segundo lugar Pablo Neruda, com 2.080 páginas de poemas editadas.
Sou um homem sozinho, dedicado somente à minha poesia. Sou solteiro e não tenho filhos. Escrevo às vezes oito cantos em vinte minutos. Minha obra está quase toda esgotada. Já vendi bastante: Livro dos Meses, mais de 30.000 exemplares; Poesia das Capitais, 10.000; Livro do Pampa, 20.000.
Por solicitação da Universidade de Coimbra, sou verbete da
Enciclopédia Biblos desde a década de 90. O verbete foi escrito por
Regina Zilberman.
Tenho quatro livros prontos para edição: Salve Argentina, de 102
cantos em louvor à pátria irmã, escrito em Uruguaiana no período de 24
de maio a 18 de julho de 2007; Velas de Portugal, louvor à pátria mãe,
com 120 cantos, escrito em 2005; Rio de Janeiro Canto de Amor e
       Esperança, 146 cantos, e Vozes do Sul do Mundo, com 150 cantos.

Honrarias da aldeia e de além-fronteiras

Recebi prêmios no Rio Grande do Sul e prêmios nacionais e internacionais – nos Estados Unidos, Itália, Paraguai e Panamá.

  • Prêmio Estadual de Poesia (1971)
  • Prêmio de Literatura de 1985, do jornal The Brazilians, de Nova Iorque, no First Brazilian National Independence Day Street Festival.
  • Prêmio Expresión Cultural, da República do Panamá (1985).
  • Prêmio Excelência en las Americas, do programa de televisão norte-americana Cita con las Américas, de Nova Iorque, em 1985.
  • Prêmio Literário Érico Veríssimo, da Câmara de Vereadores de Porto Alegre (1988).
  • Prêmio de Poesia 1987, concedido pelo jornal Kronica e pela Empresa Porto-Alegrense de Turismo.
  • Prêmio Valores Culturais de las Américas, concedido pelo programa de televisão Cita con las Américas, de Nova Iorque (1988).
  • Prêmio Clave de Sol, conferido pelo Clube de Compositores do Rio Grande do Sul (1988).
  • Prêmio de Poesia, por Poesia Reunida, Paraguai (1993).
  • Prêmio Mayor Poeta Latinoamericano – Gobierno do Alto Paraná, Paraguai (1993)
  • Prêmio Literatura and Family: The Noblest Desire, Bolonha; Itália (1993).
  • Prêmio Altamente Recomendável, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (1993), por Livro dos Meses.
  • Grande Prêmio 2001 da Academia Brasileira de Letras, por Trilogia do Azul, do Mar, da Madrugada e da Ventania.
  • Prêmio Negrinho do Pastoreio, ao melhor Poeta do Rio Grande do Sul (2005)
  • Prêmio 2009 do Instituto Literário e Cultural Hispânico, com sede na Califórnia (EUA). A entrega será em agosto, na Argentina, durante o XXXII Simpósio Internacional do Instituto. O prêmio já foi concedido a escritores mundialmente reconhecidos, como Augusto Roa Bastos e Mario Benedetti. Tenho orgulho em ser Membro de Honra do Instituto Hispânico desde 2007, ao lado de Jorge Luis Borges (fundador), Ernesto Sábato e Isabel Allende.

Solidão Provisória foi considerado, em 1978, o mais importante lançamento da Poesia, pelo maior jornal do Rio Grande do Sul – Zero Hora – e pelo Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro.
Desde 1997 sou Cidadão de Porto Alegre, título que me foi conferido pela unanimidade dos vereadores da capital do Rio Grande do Sul. Em 1988 os representantes do povo de Porto Alegre, também por decisão unânime, haviam me concedido o Prêmio Érico Veríssimo, pelo conjunto da obra. Da Casa do Poeta Rio-Grandense recebi, por eleição, o título de Príncipe dos Poetas Rio-Grandenses. E em 1987 e 2000 fui eleito, respectivamente, para a Academia Rio-Grandense e para a Academia Sul-Brasileira de Letras. Essas honrarias de aldeia são as que mais me comovem.
Boêmio desde sempre, em 1972 fui nomeado pelo nacionalmente consagrado compositor Lupicínio Rodrigues para o cargo vitalício de Secretário da Noite. Vinte anos depois, fui feito padrinho do Clube da Farra, de Recife, capital do estado nordestino de Pernambuco, junto com o poeta Carlos Penna Filho. Nossos retratos foram expostos em lugar de honra das paredes do bar.
Em permanente militância pela literatura, idealizei e fui o primeiro presidente da Associação Gaúcha de Escritores, em 1982, tendo como vice Tarso Genro, atual ministro da Justiça do Brasil. À época sugeri ao deputado estadual Ruy Carlos Ostermann que a Assembléia Legislativa batizasse com o nome do poeta Mário Quintana a Casa de Cultura que seria criada em Porto Alegre. Pedi também a introdução de obras de escritores gaúchos nas provas escolares do Rio Grande do Sul. Meus dois pleitos foram atendidos.
Em 1986 fui Diretor de Cultura de Porto Alegre e idealizei a Secretaria Municipal de Cultura, implantada durante o governo do prefeito Alceu Collares.
Meus 40 anos de poesia foram comemorados no Brasil, na Argentina e no Paraguai, de maio a junho de 2007. A celebração começou com a criação e a entrega, na Argentina, do Prêmio Binacional –Brasil/Argentina- Poeta Luiz de Miranda”. E foi encerrada, em junho, no Paraguai, onde fui presidente de Honra do III Encuentro Internacional de Literatura del Mercosur (bloco regional que reúne Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai).
Em 10 de janeiro de 2007 foi criado em Porto Alegre o Instituto Cultural Poeta Luiz de Miranda – Escola de Poesia e Artes. É o primeiro instituto desse gênero no Rio Grande do Sul. Tem, como membros de Honra, Ferreira Gullar, Gerardo Mello Mourão, Lygia Fagundes Telles, Ivan Junqueira, Antonio Carlos Sechim, Affonso Romano de Sant’Anna, Lêdo Ivo, Antonio Olinto, Nélida Piñon e Juana Arancebia. O padrinho do Instituto é o escritor Moacyr Scliar. Patronos: Walt Whitman, Pablo Neruda, Garcia Lorca e Carlos Drummond de Andrade.
Artistas de diversas áreas fazem parte do Instituto, entre eles Alceu Valença, Tabajara Ruas, Ivan Lins, Renato Borgheti, Cadica Costa, Sérgio Faraco, Washington Benavides (Uruguay), Perfecto Cuadrado (Espanha), Patrícia da Luz e Claudio Bustos (Paraguay), Carlos Fajardo (Colômbia), Vergílio Lemos (Cuba).

O canto das palavras

Minha larga e intensa convivência com cantores e compositores, em todo o país, me conduziu à produção de versos para serem musicados. Tornei-me parceiro de compositores a partir de 1970, em Porto Alegre, por estímulo de Lupicínio Rodrigues, que me sugeriu procurar Ivaldo Roque.
Ivaldo musicou um fragmento de meu poema Porto Alegre Roteiro da Paixão. No fim daquela década uma parceria minha com Kleiton Ramil – Palavra – representou o Brasil no XX Festival Internacional da Canção deViña Del Mar, no Chile, o maior evento desse gênero em todo o planeta.
Em seguida, comecei a participar de festivais de música no Rio Grande do Sul. Tambor de minha terra, em parceria com Ernesto Fagundes, venceu o 20º. Musicanto Sul-Americano de Nativismo, na cidade gaúcha de Santa Rosa. O prêmio foi um carro 0km. No mesmo festival eu já havia concorrido com a obra Pampa de Luz, parceria com Pery Souza, até agora gravada por dez cantores e cantoras, inclusive em espanhol pelo cantor argentino Cláudio Bustos (1992). Outra canção composta com Ernesto Fagundes, Feliz Viagem, venceu uma das edições da Moenda da Canção, um dos festivais mais abertos do Rio Grande do Sul. Pampa, com música de Mauro Moraes, venceu a Tafona da Canção, na cidade de Osório.
Ainda antes desse envolvimento com os festivais, mantive parceria com o compositor e cantor argentino Martin Coplas. Produzimos 15 canções, que formaram o repertório do grupo Cantares para um espetáculo realizado no Teatro de Arena em 1976. A parceria com Coplas e a formação do Cantares inspiraram a migração, para Porto Alegre, de outro artista argentino – Talo Pereyra, até hoje domiciliado no Rio Grande do Sul.
Formei parceria também com Zezinho Atanázio, como em Brilho livre, música apresentada no programa dominical de maior audiência no horário noturno da TV brasileira, o Fantástico, da Rede Globo de Televisão. Tenho versos musicados igualmente por Bebeto Alves, Colombo Cruz, Dúnia Elias, Fausto Prado, Henrique Mann, Hilton Barcelos e Mário Barbará, entre outros.
Em 1990 fui homenageado pelo compositor e cantor Ivan Lins, num espetáculo que fez em Porto Alegre. Ivan, de quem eu me tornara amigo no Rio, dedicou-me o show, musicou um poema e recitou outro. Mais uma homenagem me foi prestada pelo Grupo Caverá. Ele batizou de Pampa de luz um espetáculo que apresentou no Teatro Renascença, em Porto Alegre.

    A poesia itinerante

Em boa medida, as amizades e mesmo a obra poética que construí foram inspiradas por minha inquietude, traduzida, por exemplo, no gosto por viajar. Eu sempre quis ir embora de Uruguaiana. Me sentia chamado pelas grandes cidades. Aos 21 anos saí de Uruguaiana para São Paulo, mas fiz rápida escala em Porto Alegre, suficiente para firmar amizade com o poeta Mário Quintana, interiorano de Alegrete. Fomos amigos por 28 anos, até o fim da vida dele em maio de 1994.
Ao chegar a São Paulo, a maior cidade do país, minha vida passou por uma mudança de 360 graus. Logo me envolvi com o melhor da cultura brasileira, que deu uma guinada na minha vida e no meu poema. Nessa época, em companhia de um amigo fui levar uma Kombi para Aracaju, capital do estado nordestino de Sergipe. Foi uma longa viagem ao interior miserável, às feridas mais graves de nossa injustiça social.
Na volta permanecei alguns dias no Rio de Janeiro, a cidade mais linda do mundo, onde morei por dois períodos – de 76 a 79 e de 83 a 85 – e onde conheci alguns dos maiores escritores do país.
Passara minha infância e adolescência entre Uruguaiana e Paso de los Libres. Mas minha primeira viagem para o exterior ocorreu em 61. Fui levado por um grupo de comunistas de Uruguaiana a um congresso internacional no Uruguay, onde conheci e apertei a mão de Ernesto Che Guevara, então ministro da Economia de Cuba.
Em 1972, voltei a Montevidéu, onde conheci Mario Benedetti, e estendi a viagem até Buenos Aires, na Argentina, e Santiago, no Chile. Era um roteiro provocado por minhas ligações com a esquerda latino-americana. Numa das estadas em Santiago conheci o poeta Pablo Neruda, através do Partido Comunista chileno.
Retornei a Buenos Aires em 75. Morei lá, no Hotel Gran Via, na Calle Sarmiento. Foi na capital argentina que me encontrei com o poeta Ferreira Gullar e o dramaturgo Augusto Boal, exilados da ditadura brasileira. Outro dramaturgo, Paulo Pontes, estava de passagem por Buenos Aires. Fiz amizade com grandes poetas argentinos: Juan Gelman, Chico Urondo e Miguel Angel Bustos, que se tornaram personagens de meu poema Buenos Aires, Buenos Aires, escrito nessa época.Urondo e Bustos foram assassinados pela ditadura argentina. Sobrou Gelman, cujo filho foi assassinado pelos militares. O poeta mora no México até hoje.
Ainda em Buenos Aires conheci Jorge Luís Borges, o grande escritor argentino, um homem cego, sábio e de poucas palavras. Tinha a mania de tratar de árvore genealógica e manifestou-se convicto de que Miranda era seu parente.
Na Argentina, a direitista “triple A” inaugurou uma fase de ultimatos, fixando prazo de 48 horas para os esquerdistas abandonarem o país. Quando o ultimato alcançou meu amigo uruguaio Mario Benedetti, resolvi voltar para o Brasil.
Conheci quase todo o meu país acompanhando Alceu Valença, amigo, poeta, compositor e cantor de imenso sucesso. Estivemos em todas as capitais dos estados brasileiros e em muitas cidades do interior. Nessas andanças recolhi a matéria-prima para meu livro Poesia das Capitais, publicado pela Editora FTD, de São Paulo, em 2003. Cantei nele todas as 27 capitais.

      Busto no estádio e mão de Deus no destino

Nasci em 6 de abril de 1945 numa casa preta de barro e tijolo, na rua Aquidaban (atual Flores da Cunha), à beira do rio Uruguay, em Uruguaiana, fronteira do Brasil com a Argentina. Tinha pouca chance de obter algumas coisas da vida. Fui criado pela minha avó, Francisca Goulart de Miranda, minha mãe, também Francisca, e meu padrasto, Elpídio Nunes da Rosa. Todos analfabetos. Um dia, conservando com José Saramago, ele me disse que tínhamos uma coisa em comum: seus pais também eram analfabetos.
Devo meu início literário à professora Domingas Faraco, mas a continuação se deve ao talento que considero espiritual. Foi o espírito que me guiou pelo mundo e me deu o lugar que ocupo hoje.
Na minha juventude, fui jogador de futebol. Atuei nos profissionais do Sá Viana Futebol Clube, de Uruguaiana. Tinha 18 anos. Joguei em vários campeonatos amadores de minha cidade. Nos times do Bangu, Andradas e Canto do Rio. Em São Paulo, joguei algumas partidas pelo time da faculdade, mas já estava envolvido com a luta contra a ditadura militar, com o teatro e, principalmente, com a poesia. Estou citado no Guinness Book como o único poeta homenageado com um busto, ainda em vida, num estádio de futebol. A obra, de autoria do internacionalmente consagrado escultor Xico Stockinger, está no Estádio do Sá Viana, de Uruguaiana, desde 18 de fevereiro de 2005.
Em 1967 fiz curso de teatro, com Paulo Mendonça, e de recital de poemas, com Paulo Gracindo, em São Paulo. Um fato que marcou muito a minha vida e a minha poesia aconteceu nessa época. Após o curso de teatro, estava mostrando para colegas meus alguns poemas publicados em jornais quando alguém tocou meu ombro e disse:
– Deves conhecer os nossos grandes poetas.
– Acontece que eu sou do Sul e cheguei há pouco em São Paulo – respondi.
– Procure o Cassiano Ricardo. Aqui está o telefone dele.
– E quem é o senhor? – perguntei.
– Sou o crítico literário do jornal O Estado de São Paulo.
E aí aconteceu meu essencial encontro com o poeta Cassiano Ricardo.
Sou um homem pobre e simples. Não faço carreira literária e nem corte a literatos.
Acho que meu destino é marcado pela mão de Deus.

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Uma resposta para “Relato

  1. Maria Helena Grehs

    Fiquei impressionada com este relato e com minha ignorância – total ignorância – sobre o poeta Luiz de Miranda e seus poemas. Por onde andei, todo este tempo?

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